Воплi Вiдоплясова (Vopli Vidopliassova)

Em 1984, na cidade de Kiev (Ucrânia), o guitarrista Iuriy Zdorenko e o baixista Oleksandr Pipa iniciaram suas respectivas carreiras musicais tocando juntos na banda de heavy metal SOS. Dois anos depois, em 1986, os dois amigos conheceram o versátil músico Oleh Skrypka, que além de ótimo cantor também tocava acordeão, guitarra e trompete. A afinidade musical do trio foi tão grande que Zdorenko e Pipa decidiram sair do SOS e acabaram formando uma nova banda com Skrypka. Convidaram Serhiy Sakhno para assumir as baquetas, e escolheram Воплi Вiдоплясова (Vopli Vidopliassova) como o nome da banda, que é uma referência ao personagem Grigori Vidopliassov do romance Село Степанчиково и его обитатели (Aldeia de Stiepantchikov e seus habitantes), de Fiódor Dostoiévski. A banda procurou mesclar o rock’n'roll com outros estilos musicais, como o folk e o punk – os dias de heavy metal haviam ficado para trás – e decidiu que as músicas seriam compostas em ucraniano.

Em 1987, o grupo fez sua primeira apresentação em um festival, organizado pelo rock club de Kiev, e foi escolhida como a “banda do ano”. A música ”Танці” (Tantsi) se tornou um hit dentro da Ucrânia e, em pouco tempo, acabou se tornando muito conhecida nos demais países da União Soviética, como a Lituânia e a Rússia. Em 1988, o grupo organizou uma turnê com as bandas ucranianas Коллежского асессора (Kollejskogo asessora) e Рабботой Хо (Rabbotoi Kho) e fez uma exaustiva turnê pela Ucrânia. Os shows foram muito bem-sucedidos, e não demorou muito para que o Vopli Vidopliassova fosse convidado a tocar fora do país: primeiro se apresentaram em Vilnius, no festival Рок-форуме-88 (Rok-forume-88), depois em Moscou, Palácio da Cultura Gorbunov. No ano seguinte, foi a vez de Leningrado (atual São Petersburgo), onde a banda dividiu o palco com a lendária banda АукцЫон (Auktyon).

Em 1990, o Vopli Vidopliassova saiu em turnê pela Europa – os shows que a banda realizou na França foram tão bem-sucedidos que a banda acabou conseguindo apoio e recursos técnicos para gravar um deles, que acabou se tornando o primeiro álbum do grupo, Або або (Abo abo), lançado em 1991. Ainda em 1991, Skrypka e Pipa se mudaram para Paris, o baterista Serhiy Sakhno permaneceu em Kiev e Zdorenko decidiu sair da banda. Mesmo com a distância, a banda gravou alguns álbuns e fez alguns shows em Paris e na URSS. O “Período Francês” do Vopli Vidopliassova terminou em 1996, quando a Skrypka e Pipa retornaram para Kiev. Eugene Rohachevsky foi convidado para assumir as guitarras e, no ano seguinte, o grupo conseguiu um contrato com a S.B.A./GALA Records. Em 1998, a banda lançou o álbum Країна мрій (Krayina mrij), que consistia basicamente de canções gravadas no início dos anos 1990. O álbum Хвилi Амура (Khvyli Amura), de 2000, também seguiu esse mesmo espírito, mesclando canções antigas que ainda não haviam sido lançadas com novas músicas.

O ano de 2000 foi especial para banda, pois pela primeira vez conseguiu fazer uma turnê fora da Europa, tocando em Israel e nos Estados Unidos. Além disso, o grupo também recepcionou o então presidente norte-americano Bill Clinton, quando este visitou a Ucrânia naquele ano. Em 2006, foi lançado o álbum Були Деньки, que comemorava o vigésimo aniversário do grupo. No ano seguinte, Pipa deixou o grupo, senod substituído por  Oleksij Mel’chenko. Já em 2008, a banda gravou uma versão rock’n'roll para o Hino Nacional Ucraniano. O último álbum de estúdio do Vopli Vidopliassova, Самата Воплi Вiдоплясова (Samata Vopli Vidopliassova), foi lançado em 2011, e trata-se de uma releitura de grandes sucessos da banda feita em parceria com o grupo de ethno jazz ucraniano Самата (Samata). É claro, as versões são para lá de inusitadas, com diversos elementos do acid jazz e da world music. Além disso, a banda segue em turnê pela Ucrânia, mantendo a marca de 200 shows por ano, em média.

INTEGRANTES ATUAIS

  • Oleh Skrypka – voz, acordeon, saxofone, letras e música
  • Oleksij Mel’chenko – baixo
  • Serhiy Sakhno – bateria, percussão, backing vocal
  • Eugene Rohachevsky – guitarra, voz

DISCOGRAFIA

  • Або або (1991)
  • Закустика (MC, 1993)
  • Країна мрій (1994)
  • Музіка (сингл, 1996)
  • Музіка (1997)
  • Любов (сингл, 1998)
  • Хвилi Амура (2000)
  • День нароDJення (2001)
  • Мамай (сингл, 2001)
  • Файно (2002)
  • Були деньки (2006)
  • Видеоколлекция (DVD, 2007)
  • ВВ на сцене фестиваля Рок Сич (2008)
  • Гимн-Славень Украины (2008)
  • Видеоколлекция (коллекционное издание 2 DVD, 2008)
  • Ладо (виртуальный сингл, 2008)
  • Були деньки (vinyl LP, 2008)
  • Ладо (сингл, 2009)
  • Чiо Чiо Сан (сингл, 2009)
  • Відпустка (сингл, 2010)
  • Самата Воплi Вiдоплясова (2011)

Site oficial em ucraniano: http://vopli.com.ua/

Site oficial em russo: http://ru.vopli.com.ua/

Canal no YouTube: http://www.youtube.com/user/VopliVidopliassova

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Ария (Aria)

Na primavera de 1985, na cidade de Moscou, dois jovens músicos apaixonados por Judas Priest e Iron Maiden, o guitarrista e compositor Vladimir Kholstinin e o baixista Alik Granovskii, resolveram montar uma banda, nomeando-a ARIA. Kholstinin já havia tocado antes em dois grupos de rock da cidade, Волшебные сумерки (Volshebnye sumerki) e Альфа (Al’fa, onde conheceu Granovskii), e estava bem familiarizado com a cena underground moscovita. Entre um show e outro, acabou fazendo amizade com outros músicos, convidando alguns deles para integrarem sua nova banda: o vocalista Valerii Kipelov, do grupo Лейся, песня (Leisia, pesnia), o tecladista Kirill Pokrovskii e o baterista Aleksandr L’vov, ambos integrantes do Поющие сердца (Poiushchie serdtsa).

No dia 31 de outubro de 1985, o Aria lançou seu primeiro álbum, Мания Величия (Maniia Velitchiia). Todos os integrantes participaram do processo de elaboração das letras e músicas do álbum. Além disso, também contaram com a colaboração da poetisa, jornalista e tradutora Margarita Pushkina, que escreveu algumas letras – até hoje ela colabora com a banda. O disco obteve uma ótima repercussão entre o público de heavy metal de Moscou e arredores, o que acabou proporcionando ao grupo, já no ano seguinte, uma turnê por várias cidades russas.

Em novembro de 1986, a banda lançou o segundo álbum, С кем ты? (S kem ty?), que fez ainda mais sucesso do que  disco anterior. Durante as gravações deste álbum, a formação do Aria sofreu algumas alterações: agora o grupo contava com um segundo guitarrista, Andrei Bol’shakov, o baterista Igor Moltchanov entrou no lugar de L’vov e o tecladista Kirill Pokrovskii abandonou o barco. Diversas músicas de S kem ty? passaram a ser executadas nas rádios, e o nome da banda era sempre citado nos rankings de músicas mais pedidas pelos ouvintes.

 O ano de 1987 foi marcado por mais um entra e sai de integrantes: da formação original, ficaram apenas Kholstinin e Kipelov. Os novos integrantes eram o guitarrista Sergei Mavrin, o baixista Vitalii Dubinin e o baterista Maksim Udalov. Neste mesmo ano, a banda gravou seu terceiro álbum, Герой асфальта (Geroi asfal’ta), lançado pela gravadora oficial da URSS, a Melodiia. Em 1988, o Aria gravou seu primeiro videoclip (da música Улица Роз, Ulitsa Roz) e fez sua primeira turnê fora da Rússia, tocando na Alemanha e na Bulgária. No ano seguinte, Udalov deixou a banda, sendo substituido por Aleksandr Maniakin. Já o ano de 1991 será marcado pelo lançamento do disco mais conceitual da banda, Кровь за кровь (Krov’ za krov’), que versava sobre a relação entre o homem e as forças sobrenaturais do universo.

Em 1994, a banda conseguiu um contrato com a gravadora MOROZ Records, que relançou todos os álbuns gravados pelo Aria até aquele momento. Durante as gravações do álbum Ночь Короче Дня (Notch’ Korotche Dnia), de 1995, o guitarrista Sergei Terent’ev entrou no lugar de Mavrin. Em 1999, a banda fez uma parceria com a Harley-Davidson, lançando um mini CD com quatro músicas, Tribute to Harley-Davidson, e, no ano seguinte, compôs a trilha sonora do jogo de computador “Hard Truck 2: King of the Road”. Em 2002, o grupo idealizou uma turnê em que seria acompanhada por uma orquestra: o projeto, nomeado “Классическая Ария” (Klassitcheskaia Aria), rodou por diversas cidades da Rússia durante dois meses e foi a última turnê da banda com o vocalista Valerii Kipelov, que deixou  Aria para formar o grupo Кипелов (Kipelov).

 O álbum Крещение Огнём (Kreshchenie Ogniom), lançado em 2003, contava com uma nova formação: além de Kholstinin e Dubinin, integravam a banda o vocalista Artur Berkut, o guitarrista Sergei Popov e o retorno do baterista Maksim Udalov. Em 2005, para comemorar os 20 anos de estrada, o Aria fez uma grandiosa turnê de comemoração, que contou com a participação especial de Iuri Shevtchuk (DDT), Viatcheslav Butusov (Nautilus Pompilius) e Konstantin Kintchev (Alisa) . Já em 2008, a banda fez outra mega turnê para comemorar os 20 anos do álbum  Geroi asfal’ta, com a participação de Valerii Kipelov e Sergei Mavrin. Em agosto de 2011, Artur Berkut deixou o Aria, sendo substituído por Mikhail Jitniakov. Nessa época, surgiram alguns rumores de que Kipelov voltaria para a banda, mas foram apenas boatos, já que sua carreira solo ia muito bem. No momento, o Aria está em turnê divulgando o álbum Live in Studio, lançado em 2012.

INTEGRANTES ATUAIS

  • Mikhail Jitniakov — voz
  • Vladimir Kholstinin — guitarra
  • Sergei Popov — guitarra
  • Vitali Dubinin — baixo, backing vocal
  • Maksim Udalov — bateria

DISCOGRAFIA

  • Мания величия (1985)
  • С кем ты? (1986)
  • Герой асфальта (1987)
  • Игра с огнём (1989)
  • Кровь за кровь (1991)
  • Ночь короче дня (1995)
  • Сделано в России (концертный альбом – 1996)
  • Генератор зла (1998)
  • Химера (2001)
  • Крещение огнём (2003)
  • В поисках новой жертвы (концертный альбом – 2003)
  • Живой огонь (концертный альбом – 2004)
  • Армагеддон (2006)
  • Пляска ада (концертный альбом – 2007)
  • Герой асфальта XX лет (концертный альбом – 2008)
  • Феникс (2011)
  • Live in Studio (Сборник – 2012)

Site oficial: http://www.aria.ru/

YouTube: http://www.youtube.com/user/AriaRussia

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Panorama da cena gótica russa, 1990-2000 (parte 2)

Continuando nossa viagem musical pelo universo gótico russo, apresentamos mais quatro bandas essenciais para entendermos o desenvolvimento deste estilo musical por lá, que surgiram no período entre 1990 e 2000:

Caprice

Liderado pelo compositor e pianista Anton Brejestovski e tendo como marca registrada a doce voz de Inna Brejestovskaya, o grupo neoclássico CAPRICE foi formado em Moscou, em 1996. Neste mesmo ano, o coletivo se trancou em um estúdio e gravou o seu primeiro álbum, Зеркало, que transitava entre o neoclássico e o rock progressivo e versava sobre a vida, a morte e a vida após a morte. À partir de 1998, o grupo passará a explorar a temática dos elfos e aperfeiçoar a linguagem neoclássica, abandonando o progressivo. Em 2000, participaram da coletânea Edge of the Night: Russian Gothic Compilation, produzida pelo site Russian Gothic Page, com a música Princess Mee, o que contribuiu muito para divulgar o trabalho do grupo: no ano seguinte, conseguiram um contrato com a gravadora francesa Prikosnovenie. Com melhores estúdios e instrumentos e maior suporte de divulgação, o grupo se tornou bastante conhecido nos circuitos alternativos da Europa. Sempre procurando aperfeiçoar a música do Caprice, Anton Brejestovski passou a explorar outros temas em suas composições, como os mitos e lendas das fadas, a poesia de William Blake e o universo de JRR Tolkien. Também passou a escrever em outros idiomas, como o inglês, o alemão e o laoris, uma língua de fadas criada pelo próprio grupo. Até o momento o Caprice gravou 11 álbuns, sendo o último, Ginderwodan, lançado em abril de 2012.

MySpace: http://www.myspace.com/laoris

Facebook: http://www.facebook.com/capricemusic/

DoppelgängeR

Um dos mais antigos e influentes grupos da cena gótica russa, o DOPPELGÄNGER foi formado em Moscou, em 1994. Influenciado pela cena pós-punk e gótica inglesas (como as bandas Joy Division e Siouxsie and The Banshees), o grupo é formado por Dmitry Flo (voz e baixo), Black CaT (guitarras ) e Maggoth (bateria). Quanto ao nome da banda, trata-se de uma música do grupo de EBM/industrial alemão Die Krupps. Desde o primeiro álbum, Doppelgänger, lançado em fita cassete em 1995, as músicas sempre foram compostas em inglês. Apesar do início de carreira ter sido um pouco difícil, com poucas oportunidades de se apresentarem ao vivo, além da divulgação precária, o grupo gradativamente foi se tornando famoso nas cena gótica de Moscou e de São Petersburgo. Em 2004, a banda participou de um importante festival moscovita, o Музыка-Москва-2004 (Muzyka-Moskva-2004); depois vieram os festivais pela Europa, como o Lumous Gothic Festival, na Finlândia, e o Castle Party Festival, na Polônia. O sucesso do grupo se tornou tão grande que o crítico musical e jornalista Mick Mercer escolheu uma foto da guitarrista Black CaT para ilustrar a capa de seu livro Music to Die for (uma verdadeira enciclopédia de bandas góticas do mundo inteiro). Até o momento o grupo lançou 7 álbuns, além de ter participado de diversas coletâneas pela Europa.

Site oficial: http://www.doppelganger.ru/

Moon far Away

O projeto musical MOON FAR AWAY foi criado em 1995 por Count Ash (letra e música, voz, violão,teclados, flautas, ocarina, gusli, balalaika e percussão) e Heleg (fotos e arte), na cidade de Arkhangel’sk, situada na região norte da Rússia. A idéia da dupla era criar uma linguagem musical mais espiritualizada, que unisse canções tradicionais russas, referências ao cristianismo primitivo, mitos eslavos, mitologia greco-romana etc. Desta forma, a sonoridade da banda é marcada por elementos do folk e da música bizantina, com arranjos modernos; é bastante recorrente o uso de canções tradicionais da região de Arkhangel’sk, que são rearranjadas por Count Ash. A dupla também convidou uma vocalista para integrar a banda, Anea, para dar um clima mais atmosférico. Após lançarem dois álbuns em fita cassete, conseguiram lançar  seu terceiro disco, Lado World (1997), por uma pequena gravadora. Em 2000, também participaram da coletânea Edge of the Night: Russian Gothic Compilation, produzida pela Russian Gothic Page, com a música Dezember der Zeiten (que está no quarto álbum da banda, SATOR, lançado no mesmo ano). Assim como aconteceu com as demais bandas que participaram deste CD, o Moon far Away começou a fazer sucesso nas principais cidades russas. E com o sucesso veio um contrato com uma gravadora de maior porte, participação em festivais de música neofolk dentro e fora da Rússia e uma legião de fãs pelo mundo, que aumenta a cada dia. Até o momento, a banda lançou 10 álbuns, sendo o último, Vorotsa, gravado no ano passado.

Site oficial: http://www.moonfaraway.ru/

MySpace: http://www.myspace.com/mfaofficial

Purple Fog Side

Criado em 1996, na cidade de Samara, o PURPLE FOG SIDE é um dos pioneiros do darkwave e da música eletrônica (Techno, Electro, Industrial, Dark Ambient e afins) na Rússia. O grupo é liderado pelo vocalista, guitarrista e tecladista Pavel Zolin (a.k.a. Jazztiz), único integrante da formação original, e atualmente conta com Veronika Iakovleva (voz) e Artiom Nekrassov (guitarra). Assim como o Doppelgänger, as músicas da banda também são compostas em inglês. O Purple Fog Side sempre esteve atento às novas tecnologias, divulgando suas músicas primeiro na internet – o primeiro álbum, Roon, de 1998, foi lançado primeiro na rede, pela Kosmic Free Music Foundation, um site colaborativo que divulgava bandas e projetos de música eletrônica, onde os arquivos eram baixados gratuitamente. Por esse motivo, o Purple Fog Side acabou primeiro fazendo sucesso fora da Rússia. A banda só se tornou conhecida do público russo no final da década de 1990, quando participou de alguns festivais góticos em Moscou e São Petersburgo. Em 2002, já com um razoável sucesso em sua terra natal, o grupo passou a excursionar regularmente pela Rússia e a participar de diversos festivais pela Europa, dividindo o palco com importantes bandas da cena gótica alemã, como Das Ich, De/Vision e Diary of Dreams. Até o momento, a banda lançou 7 álbuns.

Site oficial: http://www.purplefog.ru/

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Livros para entender o rock soviético

Música popular russa (e do Leste Europeu) não é um assunto que mobiliza legiões de pesquisadores, nem muito o interesse de instituições de ensino. Para cada 1000 artigos sobre Dostoiévski, você poderá encontrar 0,001 sobre cultura popular russa. Mas sempre há um maluco que acha divertido pesquisar o que ninguém pesquisa e o que não está no circuito da “alta cultura” (como é o meu caso), e que, por sorte ou ironia do destino, acaba encontrando espaço para divulgar sua pequena loucura. E quando o assunto é o rock’n'roll, as coisas ficam ainda mais complicadas. É escassa a bibliografia especializada sobre esse assunto, tanto dentro como fora da Rússia. Fiz abaixo uma seleção de livros em inglês (já que nem todo mundo lê em russo) sobre o rock soviético. São apenas quatro livros porque, até onde consegui pesquisar, esses são os mais confiáveis que abordam ou tocam nesse tema. Conforme for descobrindo outros, compartilho aqui no blog.

“Russian Popular Culture: Entertainment and society since 1900″, de Richard Stites (Cambridge University Press, 1992)

Richard Stites (1930-2010) foi professor de história na Universidade de Georgetown e pesquisador de diversos temas relacionados com a cultura popular e o movimento feminista na Rússia. Neste livro, aborda diversas manifestações artísticas que estão fora do que denominamos “alta cultura”, como a música folclórica, as séries de tv, o circo, o cinema (na linha blockbuster, não Tarkovski e cia.), as rádios, o jazz e o rock’n'roll. Através de um panorama que visa integrar história, política e estudos culturais, este livro é crucial para entendermos a força e o impacto que a cultura popular teve na Rússia e na URSS: ela nos revela muito mais a respeito da vida e do cotidiano das pessoas do que os gigantes da alta cultura. O rock’n'roll, duramente perseguido e censurado na época, nos revela, através de sua poesia, a pressão, as desilusões e a insatisfação dos jovens de se viver sob um regime que lhes privava, dentre outras coisas, a liberdade de expressão. Indico esse livro como uma primeira leitura para se ter contato com o contexto político e histórico onde o rock surgiu e se desenvolveu – depois os livros que tratam especificamente sobre o estilo musical farão muito mais sentido. Como conseguir: dá para encomendar na Amazon ou na Livraria Cultura. Também é possível visualizar alguns trechos no Google Books.

“Rock around the Bloc: A History of Rock Music in Eastern Europe and the Soviet Union, 1954-1988″, de Timothy W. Ryback (Oxford University Press, 1990)

Timothy W. Ryback, membro da Académie Diplomatique Internationale de Paris e co-fundador do Institute for Historical Justice and Reconciliation, sediado em Haia, já trabalhou na Universidade de Harvard e no Salzburg Global Seminar pesquisando sobre diversos assuntos relacionados com a política e a cultura européias. Aqui no Brasil ele é mais conhecido pelo livro A Biblioteca esquecida de Hitler – Os livros que moldaram a vida do Führer, publicado pela editora Companhia das Letras. A contracultura soviética e o universo rock’n'roll do Leste Europeu também estavam entre seus assuntos favoritos. Desta forma, Ryback decidiu, em 1990, publicar um livro onde pudesse relatar um pouco da história deste estilo musical nos países que integravam o bloco soviético. Da primeira invasão de Bill Halley & His Comets na Hungria (1954) à Perestroika (o livro vai até 1988), conheceremos as bandas, os produtores, os festivais, os censores e os embates que moldaram e consolidaram o rock soviético. Como conseguir: o livro está esgotado, esgotadíssimo, sem nenhuma esperança de ser reeditado. Dá para conseguir uma edição usada em estado razoável na Amazon. Não há visualização no Google Books.

“Back in the USSR: The True Story of Rock in Russia”, de Artemy Troitsky (Faber & Faber, 1988)

Artemy Troitsky é um importante jornalista e crítico musical russo, colaborador de diversas rádios como Эхо Москвы e Радио 101, e que também atua como produtor, compositor e organizador de eventos. Foi um dos primeiros jornalistas russos a  divulgar o rock’n'roll e a contracultura na URSS e no ocidente, colaborando em diversas publicações e documentários na Europa e Estados Unidos (como no documentário USSR&R – Rock in a Red Horse, já compartilhado aqui no blog). Neste livro, Troitsky faz uma análise do desenvolvimento do rock soviético, desde a influência do rockabilly e dos Beatles (entre as décadas de 1950 e 1960), até a invasão do punk e da new wave (década de 1980). Diferente dos dois livros anteriores, que são mais focados no contexto histórico e político, este trata mais dos gêneros musicais e bandas que influenciaram o rock na URSS. Conforme nos relata Troitsky, as primeiras bandas de rock costumavam cantar em inglês e faziam covers de bandas inglesas e norte-americanas; o Mashina Vremeni teria sido o primeiro grupo a se afastar gradativamente desta tendência, a ter uma personalidade própria e uma sonoridade propriamente russa, o que costumamos chamar de bard rock. Muitas outras curiosidades poderão ser encontradas no livro, um relato único de uma testemunha ocular da história.  Como conseguir: a edição em inglês está esgotadíssima e também sem previsão de reedição. Na Amazon é possível adquirir um exemplar usado. Já a edição em russo está disponível na Ozon. Não há visualização no Google Books.

“Rock and Roll in the Rocket City: The West, Identity, and Ideology in Soviet Dniepropetrovsk, 1960-1985″, de Sergei I. Zhuk (The Johns Hopkins University Press, 2010)

O historiador ucraniano Sergei I. Zhuk é professor associado da Ball State University, nos Estados Unidos, e pesquisa, dentre outros assuntos, sobre a influência do ocidente na cultura popular soviética. Este também é um relato de uma testemunha ocular da história, pois no final da década de 1970, Zhuk fez seu curso de História em Dniepropetrovsk, uma cidade ucraniana fechada para estrangeiros e fortemente policiada pela KGB. Mas todo esse controle não impediu que na cidade florescesse uma considerável contracultura que deixava as autoridades de cabelo em pé. E eis que surgiu a grande questão de Zhuk: como foi possível que a literatura, a música e o cinema ocidental chegassem por lá? Cobrindo toda a era Brezhnev, o livro discute como a cultura ocidental, em particular o rock’n'roll, influenciou fortemente a juventude soviética, a ponto de se tornar uma ameça ao controle ideológico mantido pelo governo – temos, portanto, um relato dos efeitos do rock na cultura soviética. Zhuk também aponta que essa fermentação cultural também acabou influenciando o ressurgimento do nacionalismo ucraniano na década de 1980, além de ter sido um dos ingredientes da formação da identidade nacional pós-soviética. Como conseguir: lançado há pouco tempo, está disponível para compra na Amazon e na Livraria Cultura. Não há visualização disponível no Google Books.

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Documentário “Перекресток рока” (Perekrestok roka, 1988)

Banda Alisa, em 1988

URSS, 1988: estamos na época da Perestroika. O lendário jornalista e crítico musical russo Artemy Troitsky e o diretor estoniano Kheini Drui se uniram para gravar um documentário sobre como andava o rock soviético naquele ano. Mas este não seria apenas um simples documentário independente: por incrível que pareça, o projeto foi encomendado pela TV estatal soviética! Depois de quase 30 anos de censura, o governo começou a ceder um pouco de espaço à cultura underground. A essa altura, já não era mais possível negar que o rock e a contracultura existiam por lá. Apesar de curto (dura um pouco mais de 25 minutos), nele podemos ver e ouvir grandes nomes do rock soviético dandos os primeiros passos rumo ao estrelato. É um registro único do período de ascenção e consolidação do rock na URSS.

FICHA TÉCNICA

  • Diretor: Хейни Друй (Kheini Drui)
  • Roteiro: Артемий Троицкий (Artemy Troitsky) e Kheini Drui
  • Ano: 1988
  • Produção: Таллинфильм (Tallinfil’m)
  • Idioma: Russo, sem legendas
  • Bandas: Круиз (Kruiz), Ин-Спе (In-Spe), Новый мир (Novyi mir), Великие Луки (Velinkie Luki), Тупые (Tupye), Нюанс (Niuans), Звуки Му (Zvuki mu), Джунгли (Djungli), Алиса (Alisa), Воплi Вiдоплясова (Vopli Vidopliassova), Антис (Antis), Чай-Ф (Thai-f).

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Panorama da cena gótica russa, 1990-2000 (parte 1)

Além da minha paixão pelo rock progressivo, sempre gostei muito do movimento pós-punk e gótico. Foi no auge de minhas pesquisas sobre esses estilos musicais e estéticos, por volta de 2004,  que entrei em contato pela primeira vez com o rock russo. Para relembrar essa época, fiz um rápido panorama da cena gótica russa em um post anterior, e também escrevi sobre algumas bandas que são referência nesse estilo, em diversas vertentes – Dvar, Otto Dix, Shmeli, Flëur (grupo da Ucrânia) e Theodor Bastard.

A lista de bandas é tão grande que poderia ficar meses só escrevendo sobre isso, mas como minha intenção neste blog é tratar sobre as diversas vertentes do rock e do pop e não apenas do universo “dark”, resolvi fazer alguns posts em estilo “coletânea” e apresentar de forma concisa outras bandas interessantes da cena. Comecemos com o período de 1990 até 2000, quando a cena gótica começou a crescer na Rússia.

 - Canonis

Liderado pela vocalista Julie White, o grupo foi formado em 1994, na cidade russa de Naberejnye Tchelny. A princípio, a banda fazia um doom metal na linha do Theatre of Tragedy, sendo uma das primeiras bandas russas a se aventurarem por esse gênero. Em 1997, depois de muitas mudanças na formação do grupo, o Canonis acabou abandonando o metal e migrou para o ethereal e o folk. Depois de gravarem algumas fitas demo, conseguiram participar de uma coletânea produzida pelo site Russian Gothic Page, Edge of the Night – Russian Gothic Compilation (2000), com a música “Snow River”. Essa coletânea ficou muito famosa nos circuitos alternativos da Rússia e da Europa, o que levou a banda a participar do Castle Party, um dos maiores festivais de música gótica do Leste Europeu. Em 2001, começou o entra e sai de vocalistas: Julie White saiu da banda e Aleksandra Teriokhina assumiu os vocais, mas ela abandonou o grupo em 2004 – no seu lugar entrou Evgenia Blago. Emily A. Saaen entrou no lugar de Evgenia ainda em 2004, mas saiu da banda no ano seguinte. Mesmo com as mudanças constantes de integrantes (e no momento sem vocalista), a banda segue firme e forte: em 2010 conseguiu lançar seu primeiro álbum, Apple of Discord, pela gravadora Solitude Prod., que reune algumas das melhores músicas lançadas nas fitas demos e coletâneas em que a banda participou.

Site oficial: http://canonis.com/

- Девушкин сон (Devushkin son)

O Devushkin Son iniciou suas atividades em 1993, na cidade de Kurgan. A idéia inicial do coletivo musical era compor “música das esferas” – violinos, violoncelos, teclados atmosféricos e guitarras suaves acompanhavam a doce voz de Irina Shmakova, numa mistura de trip-hop e ethereal, com pitadas de darkwave. O primeiro álbum do grupo, Девушкин Сон (Devushkin Son), foi lançado de forma independente em 1995; o crítico Artemy Troitsky comparou a sonoridade do álbum aos primeiros trabalhos do Depeche Mode. Neste mesmo ano, começaram a se apresentar em clubes alternativos de Kurgan e São Petersburgo. O sucesso no circuito gótico de Petersburgo levou a banda a conseguir um estúdio profissional e uma gravadora para lançar seu segundo álbum, Искатели жемчуга (Iskateli jemtchuga, 1997). Apesar de não ter sido tão bem recebido quanto o primeiro disco, algumas músicas chegaram a tocar no rádio. Participaram de uma coletânea em homenagem ao Depeche Mode, lançaram outro álbum (Сумерки, Sumerki, em 1999) e encerraram as atividades em 2000. Depois de um período de contemplação, Andrei Tchertishchiov (tecladista e um dos fundadores do grupo) decidiu retomar as atividades do Devushkin Son em 2008, com uma nova vocalista (Alla Iuganova), novos colaboradores e um novo álbum, Быстрые сны (Bystrye sny). No momento, a banda está na estrada divulgando o último álbum, Инопланетянка (Inoplanetianka), lançado em 2011.

Site oficial: http://www.devushkinson.ru/

- Лунофобия (Lunofobia)

Banda formada em 1997, por amigos que estudavam na Faculdade de Matemática e Mecânica de São Petersburgo. Foi um importante nome da cena gótica e alternativa que não conseguiu sobreviver ao underground, em grande parte pelas constantes “crises criativas” de seus integantes. Gravaram apenas dois discos independentes, Мечты о Солнце (Metchty o Solntse, 1998), cru e com um pé no pós-punk, e Чёрное солнце (Tchiornoe solntse, 2001), cujo estilo bruscamente migrou para o pop. Em 2003, encerraram as atividades e, se não fosse pela iniciativa do ex-baixista, Maksim Sukmanski, a obra do grupo estaria fadada ao esquecimento. Ele cuida até hoje do site de sua extinta banda, disponibilizando gratuitamente para os fãs todo o material que foi produzido por eles. Nostalgia? Esperanças de uma nova reunião? Parece que só Maksim acredita no Lunofobia: o ex-baterista, Andrei Vdovitchenko, toca no Alisa já há 10 anos; alguns intergrantes estão casados, com filhos e muito felizes com uma vida mais caseira; outros sumiram do mapa…

Site oficial: http://moonphobia.underthesnow.ru

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Слот (Slot)

A história da banda moscovita SLOT começou em 2002, quando o cantor e guitarrista Igor “Kesh” Lobanov conheceu o também guitarrista Denis “Den” Khromykh. Depois de identificarem muitas preferências musicais em comum, decidiram montar uma banda de rock alternativo e, para isso, saíram em busca de uma vocalista para o grupo. A pessoa certa para o posto não demorou muito para aparecer: Teona “Teka” Dol’nikova, experiente e versátil cantora e atriz, que já havia participado de diversos musicais em Moscou. O primeiro show do trio aconteceu ainda em 2002, no festival TWIST FEST-2, logo após terem gravado uma demo com cinco músicas próprias. A banda foi muito elogiada por sua performance em duas importantes revistas de música (Play e NME ), e convidada para participar da trilha sonora do filme policial  Бумер (Bummer), do diretor Piotr Buslov.

Tanto o filme quanto a trilha sonora foram muito bem sucedidos na Rússia e, em consequência disso, o sucesso acabou chegando bem rápido para a banda. Já em 2003, conseguiram um contrato com a gravadora Мистерия Звука (Misteria Zvuka) e lançaram o primeiro álbum, Slot 1. Este disco também marcou a estreia de dois novos integrantes na banda, o guitarrista Sergei “ID” Bogoliubski e o baterista Aleksei “Proff” Nazartchuk, além de Igor “Kesh” ter abandonado de vez as seis cordas, dedicando-se apenas aos vocais. Ainda em 2003, a banda participou da primeira edição da premiação RAMP (Russian Alternative Music Prize), dividindo o palco com a atração internacional Korn. Em 2006, lançaram o segundo álbum, 2 Войны (2 Voiny), que atingiu em poucas semanas a marca de 10.000 cópias vendidas.

Logo após o lançamento de 2 Voiny, Teona “Teka” abandonou o grupo, sendo substituída por Daria “Nookie” Stavrovitch. Ainda em 2006, Aleksei “Proff” e Denis “Den” saíram da banda para tocarem juntos no Tracktor Bowling; foram convocados Kirill “Mr Dudu” Katchanov (bateria) e Mikhail “Mix” Petrov (baixo) para substituí-los. Com essa nova formação, o Slot gravou em 2007 o terceiro álbum de sua carreira, Тринити (Triniti), que repetiu o sucesso de vendas do disco anterior. A turnê de divulgação deste álbum passou por mais de 50 cidades da Rússia, além de tocarem em outros países, como a Ucrânia, a Bielorrússia e a Armênia. Participaram também do festival Россия Вперед! (Rossiia Vpered!), tocando com grandes nomes do rock russo, como Aria, Nogu Svelo! e Pilot. 

O lançamento do álbum 4ever, em 2009, foi um sucesso estrondoso de vendas: a primeira tiragem deste CD esgotou-se rapidamente. A música Ангел О.К. (Angel O.K.) se tornou um hit das rádios russas; o clipe desta canção foi um dos mais assistidos no canal A-ONE e no YouTube naquele ano. O Slot entrou para a lista das bandas de rock que mais vendem discos na Rússia. Em 2010, o sucesso da banda chegou na Holanda, onde a música Лего (Lego) tocou diversas vezes em rádios importantes, como a 3FM e a KinkFM. A banda também passou a ter suas músicas executadas nos EUA; visando atingir esse público, a banda lançou em 2011 um álbum em inglês, Break The Code, distribuído em território norte-americano pela Universal Music. No momento, o Slot está em turnê divulgando o álbum F5, também lançado em 2011.

INTEGRANTES ATUAIS

  • Daria “Nookie” Stavrovitch— voz
  • Igor “Kesh” Lobanov— voz
  • Sergei “ID” Bogoliubski — guitarra
  • Nikita “NiXoN” Simonov — baixo
  • Kirill “Mr Dudu” Katchanov — bateria

DISCOGRAFIA

  • 2003 — Slot 1
  • 2006 — 2 Войны
  • 2007 — Тринити
  • 2009 — 4ever
  • 2010 — The Best Of…
  • 2011 — Break The Code
  • 2011 — F5

Site oficial: http://www.slot.ru/

Last.fm: http://www.lastfm.ru/music/СЛОТ

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